
Em visita a Belém, o ex-lutador baiano Acelino de Freitas, o Popó, bicampeão mundial na categoria Super Pena e bi-campeão mundial dos Super Leves, esbanjou simplicidade. Detentor de quatro títulos mundiais, conquistados pela Associação Mundial de Boxe (AMB) e pela Organização Mundial de Boxe (OMB), Popó é maior ícone nacional do boxe desde Eder Jofre. Entre outros eventos em Belém, ele participou do Congresso Técnico de Boxe, e deu um show de simpatia ao falar de sua carreira dentro e fora do boxe, do atual momento do boxe brasileiro, da sua participação na política e até da sua relação com seu ex-treinador, o paraense Ulis-ses Pereira.Nascido em um bairro periférico da capital baiana, Salvador, filho caçula de uma família de seis filhos, Popó teve uma infância pobre, por isso, antes de subir nos ringues para enfrentar seus adversários, teve primeiro que derrubar seu mais difícil oponente – a vida dura que levava antes do sucesso. O começo da mudança foi justamente ao ingressar na carreira de lutador, aos 14 anos de idade.De lá para cá foram só conquistas, e Popó se tornou o maior lutador de boxe que o Brasil já teve nos últimos anos. Ele contou todos os detalhes na entrevista exclusiva abaixo, concedida ao repórter Ale-xandre Cunha, do jornal Tribuna do Pará.
TP: Como você avalia sua carreira?
TP: Como você avalia sua carreira?
Popó: Na realidade, qualquer pessoa pode analisar minha carreira. Possuo 40 lutas em meu cartel, e dessas venci 32 por nocaute, seis foram vencidas por pontos e tive apenas duas derrotas. Além disso, resgatei o nome do Brasil no mundo, pois desde Eder Jofre não tínhamos um lutador brasileiro campeão do mundo. E mais, fui campeão do mundo em duas categorias dife-rentes. Então, meus resultados indicam muito bem o sucesso que foi a minha carreira.
TP: Durante as suas lutas, podíamos ver o Ulisses Pereira ao seu lado como técnico. Desde quando surgiu essa parceria Popó-Ulisses?
Popó: Estou com o Ulisses desde o início da minha carreira, ainda no boxe amador. Com ele conquistei uma medalha panamericana nos jogos de Mar del Plata, na Argentina, junto com a seleção brasileira. Depois disso, ingressei na carreira profissional e não pude trazer o Ulisses comigo, devido ao fato de ele ter compromissos com a de-legação olímpica do Brasil. Mas, assim que ele pediu desligamento da seleção, eu corri pra convidá-lo para ser meu técnico. O homem é bom demais, muito técnico, exigente e disciplinador, então, tinha que ser ele o meu treinador. Hoje, é um grande amigo.
TP: Em que momento veio a sua decisão de abandonar as luvas?
Popó: Sabe, chega um momento da sua vida que você cansa de fazer até mesmo aquilo que você mais sabe e mais gosta de fazer. Antes dessa decisão eu pensei muito e conclui que tinha alcançado tudo que sonhava quando comecei no boxe. Sou tetra campeão mundial de boxe, consegui me firmar financeiramente, então vi que tinha chegado o momento de parar.
TP: Mas você não sente falta ou saudade de subir ao ringue?
Popó: Me acostumei logo com a ideia de me aposentar. Por isso, não sinto nenhuma falta de ser atleta. Na verdade, só sinto falta de ter aquele corpo com barriga de tanquinho (risos). Até tentei manter o corpo em forma, mas as feijoadas que como todos os domingos na casa da minha mãe não deixam. Mas sempre faço questão de lembrar que sou ex-atleta, mas continuo sendo tetracampeão mundial.
TP: E o que você tem feito como ex-atleta?
Popó: Tenho investido na carreira de empresário com a minha empresa Box Brasil, que é uma agência de eventos de boxe. Tenho ajudado crianças pobres com o meu “Instituto Acelino Popó Freitas”, onde muitas crianças são estimuladas a estudar e a praticar esportes. Fui secretário de esporte em Salvador, onde implantei inúmeros projetos esportivos que até hoje são mantidos pelo atual secretário e por último, acabei de ser aprovado no curso de Direito, pois já que tenho esses bens, preciso ter estudo para administrar melhor.
TP: Já que você foi secretário de esporte, você provou um pouco da política. Você pensa em ingressar novamente no ramo da política?
Popó: Eu sou filiado ao PRB (Partido Republicano Brasileiro) e queria muito vir agora nessas eleições como candidato a deputado federal, mas minha esposa achou melhor não. Achamos mais importante recorrer aos estudos, para me dar mais res-paldo para em breve com certeza tentar começar com minha carreira política.
TP: Como você avalia o boxe no Brasil hoje?
Popó: O boxe tem crescido muito, e o Pará e a Bahia são os maiores celeiros de novos lutadores, mas é preciso fazer a organização disso com investimentos pesados nesse esporte. Hoje o boxe enfrenta concorrentes de outros esportes de combate, como o Vale Tudo, mas o boxe ainda é mais valorizado no mundo. Por exemplo, as bolsas de apostas chegam a movimentar de 15 a 20 milhões de reais, um atrativo maior para os atletas. O que ainda falta é ter a cultura de o boxe ser transmitido na TV aberta.
TP: Qual a importância que você dá ao boxe na inclusão social?
Popó: Não só o boxe, mas toda e qualquer prática esportiva contribui para a inclusão. Por exemplo, pegar um menino de periferia e ocupá-lo com o esporte e na escola, ele vai ter tempo só para isso. No boxe, por exemplo, ele vai liberar força só no saco de areia ou no ringue e não na rua. Começa também a adquirir bons costumes, educação e respeito, aprende a di-zer obrigado, por favor, senhor ou senhora. Eu mesmo sou um bom exemplo disso. Passei muita fome na vida, não tenho vergonha de dizer isso. Sofri muito na minha infância, mas tive uma oportunidade e soube agarrá-la, o que garantiu que eu fosse quatro vezes campeão mundial de boxe. E é essa lição que quero deixar para os meninos que praticam boxe em Belém.
TP: Você lembra de algum fato inusitado da sua carreira?
Popó: Eu sempre me lembro de duas coisas engraçadas que aconteciam comigo nas minhas lutas internacionais, realizadas nos Estados Unidos, quando valiam título mundial. Eu via aquele monte de gente americano falando em inglês e apontavam pra mim. Sei com certeza que estavam falando de mim, só não sabia o que era. Eu me perguntava: “será que tão falando mal de mim?” (risos). Outra coisa foi quando eu fui disputar meu primeiro título mundial na categoria super pena. Eu tinha comprado uma casa fiado esperando pagá-la com o dinheiro dessa luta. Já pensou se eu não venço? Ainda bem que eu venci né, senão, estaria em maus lençóis e sem teto.
TP: Essa luta do seu primeiro título mundial ajudou você a comprar essa casa. Depois dessa luta, o que mais você conseguiu, o que mais deu para comprar?
Popó: Ah, eu ajudei muitas pessoas, principalmente minha família. Meus pais e irmãos passaram junto comigo toda a pobreza que tive na infância, e mesmo assim me davam força pra prosseguir no esporte. Com as minhas conquistas, nada mais justo de ajudá-los, por isso, para cada irmão meu, que são cinco, eu dei uma casa. Além disso, eles participam comigo nos meus empreendimentos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário